The Eight Letters's

Das entrelinhas

Publicado por: theeightletters em: 25 25UTC novembro 25UTC 2009

Meu professor de IED sempre conta uma história que, à primeira vista, parece ser irrelevante, mas o exemplo é muito bem montado em cima do que eu vou falar hoje. Narro então a história..

Um homem lê uma placa num estabelecimento “proibido a entrada de cachorros de qualquer porte”. Ele compreende e, no outro dia, decide visitar o estabelecimento. Decide também levar consigo um urso, criado como animal de estimação por sua família. Ao chegar no local, o gerente do estabelecimento se recusa a permitir a entrada do urso, e então o homem argumenta que a proibição se dirige única e exclusivamente à entrada de cachorros e, que portanto, ao se utilizar da norma geral exclusiva (que diz que se uma coisa é proibida, então todas as outras são permitidas), ele pode sim, entrar com o urso. O gerente então fica na dúvida, já que o argumento é pertinente, e acaba por chamar o dono para resolver esse conflito.

A história é engraçada e um tanto quanto fantasiosa, mas resume o conflito, que ocorre porque há uma grande distância entre o texto gramatical e o texto normativo. Não se pode, em uma situação como essa, levar em conta somente o aspecto literal mas a finalidade com que se estabeleceu a preposição. Se a intenção do dono era de proteger todos aqueles que usufruem do espaço coletivo proibindo a entrada de cachorros, da mesma maneira a regra se aplicaria, a fortiori, ao urso.

A grande questão é que muitas pessoas só consideram verdadeiro o que é explícito e literal. Acabam por ignorar, como no caso do urso, todo o conhecimento previamente obtido simplesmente por levar as coisas ao pé da letra, ignorando o que está nas entrelinhas. E por isso acredito que as falhas de comunicação são tão freqüentes.

É difícil lidar com pessoas que ao ouvir “vem” entendem “vai”, ao se deparar com uma discussão compreendem ódio e não amor, ao lidar com o fracasso aceitam redenção e não luta.

É mais difícil ainda lidar com pessoas que interpretam o texto como querem, sem levar em conta as reais pretensões da fala. Falar, escrever e saber se expressar corretamente e essa comunicação ser completamente distorcida é frustrante. De nada adianta gastar tempo e saliva com pessoas que não ouvem ou não dão a mínima para o que foi dito.



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